Dor crônica: por que a dor não vai embora e o que pode ser feito
Era para ser uma dor passageira: um mau jeito, uma crise, a recuperação de uma cirurgia. As semanas viraram meses, e hoje ela já faz parte da rotina. Decide se você vai ao mercado, se dorme bem, se aceita o convite do fim de semana. Talvez alguém tenha dito que "é da idade" ou que "os exames estão bons". Se você se reconhece aqui, saiba que existe explicação para a dor que fica e que há caminhos de cuidado. Este texto ajuda a entender o que está por trás dela.
Você não está sozinho
A dor persistente está entre as queixas de saúde mais frequentes do planeta. Uma revisão publicada no Lancet mostra que, em alguns estudos, ela atinge mais de 30% da população mundial [1]. Já uma visão geral de revisões Cochrane estima, entre adultos, uma prevalência média ponderada de 20% [2]. Os números mudam conforme o método de medição, mas a conclusão é a mesma: é muita gente convivendo com isso.
Quando uma dor passa a ser chamada de crônica
Em 2020, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) atualizou sua definição oficial. A dor passou a ser descrita como uma vivência desagradável, ao mesmo tempo sensorial e emocional, ligada a um dano real ou possível nos tecidos, ou parecida com a que acompanha esse dano [3]. Dois detalhes chamam atenção: a emoção faz parte da definição, e não é preciso haver uma lesão aparente.
Ela recebe o nome de crônica quando dura ou se repete por mais de três meses [4].
Doença ou sintoma? O que mudou com a CID-11
A Classificação Internacional de Doenças da OMS, em sua 11ª edição (CID-11), criou códigos específicos para a dor crônica e a separou em dois grandes blocos [4]:
Primária: aqui, a dor é o próprio problema de saúde. Persiste por mais de três meses, traz sofrimento emocional relevante e/ou atrapalha a rotina, e não se explica melhor por outro diagnóstico [5]. Fibromialgia e dor lombar inespecífica estão entre os exemplos [4].
Secundária: a dor nasce como consequência de outra doença. Entram nesse grupo a dor oncológica, a neuropática, a visceral secundária, a que surge após trauma ou cirurgia, as dores de cabeça e orofaciais secundárias e a musculoesquelética secundária [4].
O recado por trás dessa mudança é claro: a dor crônica ganhou status de condição que merece cuidado próprio, em vez de ser vista apenas como sinal de outra coisa [4].
Três mecanismos que podem estar por trás da dor
Os estudiosos costumam separar a dor em três mecanismos [1]:
Nociceptiva: nasce de lesão ou inflamação em tecidos, como acontece na artrose ou numa tendinite.
Neuropática: nasce de lesão ou doença nos próprios nervos e costuma ser descrita como choque, queimação ou formigamento. Veja mais em dor neuropática.
Nociplástica: nasce de um sistema nervoso sensibilizado, sem dano de tecido ou de nervo capaz de explicar toda a dor [6].
Na vida real, essas categorias se sobrepõem, entre pessoas diferentes e até numa mesma pessoa. Por isso, muitos pesquisadores preferem pensar nelas como um espectro, e não como gavetas separadas [1].
Sensibilização central: o volume da dor no máximo
Na dor nociplástica, a hipótese é que o sistema nervoso central amplifique os sinais dolorosos e regule a dor de forma alterada [6]. Pense num rádio com o volume travado no alto: qualquer som chega mais forte do que deveria. A dor tende a ser espalhada, ou mais intensa do que os exames justificariam, e muitas vezes vem acompanhada de cansaço, sono ruim, falhas de memória e mudanças de humor [6].
Esse componente pode aparecer isolado, como na fibromialgia, ou combinado a outros, como em boa parte das dores lombares crônicas [6]. Identificá-lo faz diferença, porque ele tende a responder menos a medidas voltadas ao ponto que dói, como anti-inflamatórios, opioides, cirurgia ou infiltrações [6].
Corpo, mente e contexto: o modelo biopsicossocial
Dor não é "só do corpo" nem "só da cabeça". O modelo biopsicossocial a enxerga como fruto da interação entre biologia, emoções e ambiente social [1]. A dor gera sofrimento e atrapalha o sono; no sentido contrário, ansiedade, depressão e noites mal dormidas deixam a dor mais forte [1]. Já o apoio de pessoas próximas e uma boa saúde geral funcionam como proteção contra a cronificação [1].
Isso não quer dizer que a dor seja imaginária. Quer dizer que cuidar de um lado só raramente basta.
Um cuidado com várias frentes
De modo geral, diretrizes e estudos apontam para um cuidado individualizado, multimodal e interdisciplinar [1]. As peças mais comuns são:
Movimento e reabilitação. Segundo revisões Cochrane, a atividade física traz poucos efeitos adversos e pode melhorar dor e função, ainda que o ganho costume ser modesto e a evidência, de baixa qualidade [2]. Saiba como dar os primeiros passos em exercício físico e dor crônica.
Sono. Como dor e sono se influenciam nos dois sentidos [1], dormir melhor entra no plano.
Saúde emocional. A psicoterapia está entre as ferramentas indicadas [1]. Na lombalgia crônica, programas que unem reabilitação do corpo a um olhar psicológico e/ou social superaram o cuidado habitual na redução da dor e da incapacidade; a evidência é de qualidade moderada e o efeito, modesto [7].
Medicamentos. Há várias classes, cada uma com indicações próprias conforme o mecanismo da dor. Quem decide, caso a caso, é o médico junto com você, sem automedicação.
Procedimentos, quando indicados. Em casos selecionados, intervenções podem compor o plano [1], como as injeções para dor na coluna.
Hábitos e metabolismo. O que você come, a saúde do intestino e o perfil metabólico também entram na avaliação.
O SDIMMMER como roteiro
Para não esquecer nenhuma dessas frentes, a equipe da Levedad usa como guia o SDIMMMER, roteiro que Lana e colaboradores publicaram em 2024 [8]. A sigla junta as iniciais, em inglês, de sete áreas: Sleep (sono), Diet (dieta), Microbiome (microbioma), Metabolism (metabolismo), Medications (medicamentos), Exams (exames) e Rehabilitation (reabilitação). O alvo é a inflamação crônica de baixo grau associada ao metabolismo, com a intenção de preparar "o terreno" para que o tratamento renda mais [8].
Com franqueza: trata-se de uma proposta teórica, ainda sem ensaios clínicos que comprovem seus resultados [8]. Ela organiza o cuidado, sem prometer desfecho.
Como a Levedad cuida de quem convive com dor crônica
Na Levedad, cada pessoa passa por uma avaliação individual, que busca entender quais mecanismos de dor estão envolvidos e como eles afetam a vida dela. A Dra. Maria Estela Semprini, anestesiologista com área de atuação em Dor, e o Dr. Vitor Pinho, neurocirurgião, avaliam o caso juntos e discutem as opções. O plano costuma combinar várias frentes, na lógica do SDIMMMER. Em casos selecionados, e sempre após avaliação, a medicina regenerativa, as ondas de choque ou a laserterapia podem ser consideradas como parte desse conjunto.
Quando procurar avaliação
Vale marcar uma avaliação se a dor já passou de três meses, interfere no sono, no trabalho ou no humor, ou não cedeu com as tentativas anteriores. Busque atendimento com mais pressa se houver febre, emagrecimento sem explicação, fraqueza ou dormência que avança, dificuldade para segurar urina ou fezes, ou se a dor começou depois de uma queda ou acidente.
Dúvidas comuns
Quanto tempo uma dor precisa durar para ser considerada crônica?
Pela classificação da IASP adotada na CID-11, a dor é considerada crônica quando persiste ou retorna por mais de três meses [4].
A dor pode ser uma doença por si só?
Pode. Na CID-11, a dor crônica primária é reconhecida como a própria condição de saúde, como acontece na fibromialgia e na dor lombar inespecífica [4][5].
Exames normais significam que a dor é imaginária?
Não. A definição da IASP não exige lesão visível [3], e na dor nociplástica a intensidade pode superar o que os exames mostram [6]. A dor é real e merece cuidado.
Agende uma avaliação na Levedad
Toda dor crônica tem uma história própria. Na Levedad, a avaliação procura entender a sua e desenhar, junto com você, um cuidado que combine diferentes frentes.
Fale com a equipe da Levedad pelo WhatsApp para agendar uma avaliação.
Levedad Medicina Regenerativa e Dor · Ribeirão Preto-SP · Diretor técnico: Dr. Vitor Pinho, CRM-SP 130236, RQE 42553.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento é individual.
Referências
Cohen SP, Vase L, Hooten WM. Chronic pain: an update on burden, best practices, and new advances. Lancet. 2021;397(10289):2082-2097. doi:10.1016/S0140-6736(21)00393-7
Geneen LJ, Moore RA, Clarke C, et al. Physical activity and exercise for chronic pain in adults: an overview of Cochrane Reviews. Cochrane Database Syst Rev. 2017;4(4):CD011279. doi:10.1002/14651858.CD011279.pub3
Raja SN, Carr DB, Cohen M, et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain. 2020;161(9):1976-1982. doi:10.1097/j.pain.0000000000001939
Treede RD, Rief W, Barke A, et al. Chronic pain as a symptom or a disease: the IASP Classification of Chronic Pain for the International Classification of Diseases (ICD-11). Pain. 2019;160(1):19-27. doi:10.1097/j.pain.0000000000001384
Nicholas M, Vlaeyen JWS, Rief W, et al. The IASP classification of chronic pain for ICD-11: chronic primary pain. Pain. 2019;160(1):28-37. doi:10.1097/j.pain.0000000000001390
Fitzcharles MA, Cohen SP, Clauw DJ, et al. Nociplastic pain: towards an understanding of prevalent pain conditions. Lancet. 2021;397(10289):2098-2110. doi:10.1016/S0140-6736(21)00392-5
Kamper SJ, Apeldoorn AT, Chiarotto A, et al. Multidisciplinary biopsychosocial rehabilitation for chronic low back pain: Cochrane systematic review and meta-analysis. BMJ. 2015;350:h444. doi:10.1136/bmj.h444
Lana JV, Lana JF, Melo G, et al. SDIMMMER: a proposed clinical approach to optimize cellular physiology in regenerative medicine. Life (Basel). 2024;14(10):1287. doi:10.3390/life14101287




Comentários