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Dor neuropática: quando o próprio nervo passa a doer

vitorfp
há 8 horas
6 min de leitura

É de noite, o corpo finalmente para e os pés começam a arder como se pisassem em areia quente. Até o roçar do lençol incomoda, e o comprimido que resolvia outras dores mal faz efeito. Quando a dor tem esse jeito, a suspeita recai sobre o próprio sistema nervoso, e o cuidado precisa seguir outro caminho.

Quando o problema está no próprio nervo

Segundo a IASP, entidade internacional dedicada ao estudo da dor, o quadro neuropático é aquele provocado por lesão ou doença do sistema somatossensitivo, o conjunto de estruturas que recebe e transporta as sensações do corpo [1]. O dano pode estar em nervos periféricos, em raízes nervosas, na medula ou no cérebro, e o problema atinge entre 7% e 10% da população [1].

Aqui, a própria via que conduz a dor está alterada. Nervos lesados conseguem gerar impulsos sozinhos, e o sistema nervoso central fica mais reativo, aumentando o sinal [1].

Como essa dor costuma se apresentar

As queixas mais típicas incluem [1]:

  • ardência ou sensação de queimação;

  • fisgadas parecidas com choques;

  • formigamento, alfinetadas e agulhadas;

  • perda de sensibilidade ou dormência;

  • dor provocada por frio ou calor;

  • alodinia, quando um estímulo inofensivo, como o tecido da roupa ou um toque leve, passa a doer.

Como o médico chega ao diagnóstico

A investigação começa pela história e pelo exame neurológico. Para organizar essa conversa existe o DN4 (Douleur Neuropathique 4), um questionário breve que pergunta sobre queimação, choques, formigamento e mudanças na sensibilidade e ajuda a diferenciar a dor neuropática de outros tipos [1]. Pesquisadores brasileiros traduziram e validaram o DN4 para o português, com bons resultados de validade e confiabilidade [2].

O questionário é um guia, e não um veredito. A partir dele, o médico escolhe os exames que podem revelar a origem; para quem tem perfil de risco, por exemplo, medir o nível de B12 [3].

De onde ela vem: as causas mais comuns

As origens são variadas [1]:

  • Diabetes: a neuropatia diabética está entre as causas mais frequentes. Numa pesquisa ampla, a dor neuropática aparecia em 21% dos portadores de neuropatia diabética, proporção que subia para 60% quando a neuropatia era grave [1].

  • Radiculopatia: uma raiz nervosa comprimida ou irritada na coluna, como acontece na dor ciática, faz a dor descer pelo membro, seja perna ou braço [1].

  • Após o herpes-zóster: a dor que fica depois do "cobreiro" é a neuralgia pós-herpética [1]. Vacinar-se contra o zóster a partir dos 50 anos diminui o risco da infecção e, com isso, da neuralgia [1]. Veja o texto sobre neuralgia pós-herpética.

  • Neuralgia do trigêmeo: dor facial relacionada a esse nervo [1].

  • Tratamento oncológico: certas quimioterapias podem agredir os nervos [1].

  • Falta de vitamina B12: pode levar a neuropatia periférica, cansaço e dificuldade de raciocínio. O risco é maior em pessoas mais velhas, em quem consome pouca B12, em quem tem problemas de absorção e em quem usa metformina ou remédios que diminuem a acidez do estômago [3].

  • Outras causas: HIV, hanseníase, traumas ou cirurgias que lesam nervos, amputações e AVC [1].

Encontrar a origem faz diferença, porque algumas, como a deficiência de B12, podem ser corrigidas com reposição [3].

Remédios: o que as grandes revisões apontam

Analgésicos simples, anti-inflamatórios e opioides fracos costumam ajudar pouco nesse tipo de dor [1]. Por isso o tratamento recorre a outras classes, definidas a partir de revisões amplas.

Em 2015, o NeuPSIG, braço da IASP dedicado a esse tipo de dor, analisou 229 estudos e colocou na primeira linha os antidepressivos tricíclicos, os IRSN (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina) e os gabapentinoides [4]. Terapias aplicadas sobre a pele e a toxina botulínica ficaram restritas à dor neuropática periférica [4].

Em 2025, uma atualização do mesmo grupo reuniu 313 ensaios e quase 49 mil participantes [5]:

  • Recomendação forte, como primeira escolha: gabapentinoides, IRSN e antidepressivos tricíclicos [5].

  • Segunda linha, recomendação fraca: opções tópicas, como capsaicina (em adesivo de alta concentração ou em creme) e adesivo de lidocaína [5].

  • Terceira linha, também fraca: opioides, toxina botulínica e estimulação magnética transcraniana repetitiva [5].

Os autores reconhecem que o benefício é modesto: com os remédios de primeira linha, entre 5 e 9 pessoas precisam ser tratadas para que uma tenha alívio relevante além do que o placebo daria [5].

Se o médico propõe um antidepressivo ou um anticonvulsivante, isso não significa que ele julgue a dor emocional: essas classes lideram a lista por terem sido avaliadas em estudos com pacientes neuropáticos [5]. Pesam na escolha o tipo de dor, outras doenças, efeitos colaterais e interações. A indicação é individual, e a automedicação deve ser evitada.

Procedimentos para casos selecionados

Quando a dor resiste ao tratamento clínico, alguns procedimentos podem ser discutidos para pacientes bem selecionados [1].

Bloqueios e infiltrações

Consistem em aplicar anestésico, associado ou não a corticoide, junto ao nervo ou à raiz. Nas radiculopatias, a infiltração epidural com corticoide reduz a dor de forma modesta, por menos de três meses, e não diminui a necessidade de cirurgia no futuro [1]. Em nervos periféricos comprimidos ou traumatizados, o corticoide aplicado em volta do nervo alivia por um a três meses [1].

Radiofrequência pulsada

Pulsos de radiofrequência são dirigidos ao gânglio da raiz dorsal, que abriga as células nervosas sensitivas. Uma metanálise de 10 ensaios, com 613 pacientes com dor radicular lombar, mostrou mais alívio aos três meses quando a técnica foi somada à infiltração do que com a infiltração sozinha, mas a evidência era de baixa qualidade e a função não melhorou de forma convincente [6].

Estimulação da medula espinhal

Um aparelho implantado manda pulsos elétricos para a medula e, assim, interfere na transmissão da dor [1]. Somada ao tratamento clínico, a técnica mostrou benefício em diferentes neuropatias dolorosas, mantido por 24 meses [1]. Um ensaio do JAMA Neurology incluiu 216 diabéticos com neuropatia dolorosa que não respondiam a remédios: aos três meses, a maior parte de quem recebeu o estímulo de alta frequência tinha ao menos metade da dor aliviada, contra poucos no grupo só com tratamento clínico [7]. Vale ponderar: o estudo foi aberto, sem placebo, contou com autores ligados à fabricante, e uma pequena parte dos pacientes teve infecção que obrigou a retirar o aparelho [7].

A escolha criteriosa de quem recebe o implante é decisiva, e há riscos como infecção e falhas do equipamento [1]. Mais detalhes no texto sobre neuromodulação.

Cuidados que fazem diferença

  • Atacar a causa quando der: repor a B12 quando falta [3] e manter o diabetes controlado, sabendo que isso, sozinho, muitas vezes não basta para tirar a dor [1].

  • Vacina contra o zóster, para quem tem indicação, como forma de prevenir a neuralgia pós-herpética [1].

  • Cuidado em equipe: a dor neuropática mexe com sono, humor e qualidade de vida, e a abordagem multidisciplinar é a recomendada [1].

  • Paciência nos ajustes: muitas vezes é preciso experimentar mais de uma opção até equilibrar alívio e efeitos colaterais.

Como a Levedad acompanha quem tem dor neuropática

Na Levedad, a avaliação individual busca primeiro o tipo de dor e a provável causa, com exame neurológico detalhado. A Dra. Maria Estela Semprini, anestesiologista com área de atuação em Dor, e o Dr. Vitor Pinho, neurocirurgião, discutem juntos o caso. O plano costuma combinar várias frentes: tratar a causa, ajustar medicamentos, cuidar do sono e do movimento e, em casos selecionados, considerar procedimentos.

Quando buscar ajuda

Vale marcar consulta quando ardência, fisgadas ou dormência duram semanas, prejudicam o sono e a rotina ou vão se espalhando. Fraqueza, dificuldade para caminhar ou incontinência urinária ou fecal pedem atendimento de urgência.

Perguntas frequentes

Todo formigamento é dor neuropática?

Nem sempre. Formigamento é um sintoma típico, mas o diagnóstico depende do conjunto de queixas e do exame. O DN4 ajuda a separar a dor neuropática de outras dores [1], e a avaliação médica define a causa.

Se o diabetes está controlado, por que os pés continuam doendo?

Controlar a doença de base é importante, mas muitas vezes não é suficiente, por si só, para aliviar a dor neuropática [1].

Por que o analgésico de sempre não resolve?

Porque a origem está em mudanças do sistema nervoso, e esse tipo de dor tende a responder pouco a analgésicos comuns, anti-inflamatórios e opioides fracos [1].

Agende uma avaliação na Levedad

Se ardência, choques ou dormência estão atrapalhando suas noites, a equipe pode ajudar a investigar a origem e discutir as opções mais adequadas para você.

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Levedad Medicina Regenerativa e Dor · Ribeirão Preto-SP · Diretor técnico: Dr. Vitor Pinho, CRM-SP 130236, RQE 42553.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento é individual.

Referências

  1. Colloca L, Ludman T, Bouhassira D, et al. Neuropathic pain. Nat Rev Dis Primers. 2017;3:17002. doi:10.1038/nrdp.2017.2

  2. Santos JG, Brito JO, de Andrade DC, et al. Translation to Portuguese and validation of the Douleur Neuropathique 4 questionnaire. J Pain. 2010;11(5):484-490. doi:10.1016/j.jpain.2009.09.014

  3. Patel H, McGuirk R. Vitamin B12 deficiency: common questions and answers. Am Fam Physician. 2025;112(3):294-300. PubMed

  4. Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-173. doi:10.1016/S1474-4422(14)70251-0

  5. Soliman N, Moisset X, Ferraro MC, et al. Pharmacotherapy and non-invasive neuromodulation for neuropathic pain: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2025;24(5):413-428. doi:10.1016/S1474-4422(25)00068-7

  6. Park S, Park JH, Jang JN, et al. Pulsed radiofrequency of lumbar dorsal root ganglion for lumbar radicular pain: a systematic review and meta-analysis. Pain Pract. 2024;24(5):772-785. doi:10.1111/papr.13351

  7. Petersen EA, Stauss TG, Scowcroft JA, et al. Effect of high-frequency (10-kHz) spinal cord stimulation in patients with painful diabetic neuropathy: a randomized clinical trial. JAMA Neurol. 2021;78(6):687-698. doi:10.1001/jamaneurol.2021.0538

 
 
 

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