top of page

Dor depois do herpes-zóster: o que é a nevralgia pós-herpética

vitorfp
há 7 horas
7 min de leitura

Faz meses que o herpes-zóster foi embora. As crostas caíram, as manchas clarearam e ninguém diria que ali houve uma infecção. Mesmo assim, aquela região continua queimando ou dando pontadas, e às vezes o simples peso do lençol à noite basta para acordar você. Não é frescura nem imaginação: trata-se da nevralgia pós-herpética, e ela tem explicação.

Antes da dor, o cobreiro

Tudo começa com o vírus da catapora, o varicela-zóster. Quase todo mundo já se infectou, muitas vezes sem lembrar: entre adultos jovens, mais de 95% carregam anticorpos contra ele [1]. Depois da catapora, o vírus fica escondido nos gânglios dos nervos da sensibilidade. Décadas mais tarde, se as defesas enfraquecem, ele pode se reativar, percorrer o nervo e chegar à pele. O resultado são bolhas agrupadas numa faixa, de um único lado do corpo: o herpes-zóster, o popular cobreiro [1].

Quando a dor passa a ter outro nome

Em geral, a dor do cobreiro vai embora junto com a cicatrização. Se ela segue presente por três meses (90 dias) ou mais contados do surgimento das lesões, passa a ser chamada de nevralgia pós-herpética. É a complicação mais frequente do herpes-zóster, e as estimativas variam bastante: de 5% a mais de 30% de quem teve a infecção [1]. Em parte dos casos, dura meses ou anos [1].

O que acontece dentro do nervo

Ao despertar, o vírus inflama e lesiona o nervo por onde passa. A infecção termina, mas o nervo machucado pode continuar emitindo sinais de dor sem motivo, como um alarme com defeito. Aos poucos, a medula espinhal e o cérebro também passam a responder de forma exagerada, processo conhecido como sensibilização [1].

Daí vem a alodinia: algo que não deveria doer passa a doer, como um carinho, o tecido da camisa ou uma corrente de ar. Pesquisas sobre a sensibilidade da pele nessa condição encontraram, em quase metade dos pacientes, a combinação de perda das fibras nervosas finas com dor ao toque leve [1].

Quem tem mais chance de desenvolver

Uma metanálise de 2025 destacou estes fatores [2]:

  • 60 anos ou mais, com risco crescente conforme a idade;

  • imunidade reduzida, por doença ou por medicamentos;

  • ter tido um cobreiro mais extenso ou mais grave, ou dor intensa já no começo;

  • ter sentido dor antes mesmo das bolhas (a chamada dor prodrômica);

  • conviver com diabetes, DPOC, pressão alta, câncer ou doença renal crônica, ou fumar.

Quando o herpes-zóster aparece no rosto, inclusive na região dos olhos, ou no tórax, a chance também parece maior [1].

Quando a dor já se instalou: as opções de tratamento

Nenhum tratamento funciona igual para todo mundo. A meta realista é diminuir a dor de maneira significativa e recuperar sono, disposição e funcionalidade [1]. O plano depende da idade, das outras doenças e dos remédios que você já usa. Não comece nenhum medicamento por conta própria.

Medicamentos por via oral

Segundo as recomendações internacionais do grupo NeuPSIG, que valem para a dor neuropática em geral, três classes de remédios ocupam a primeira linha [3]:

  • os gabapentinoides, como gabapentina e pregabalina;

  • os antidepressivos tricíclicos, escolhidos aqui pelo efeito sobre a dor, e não necessariamente porque a pessoa tem depressão;

  • os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, grupo da duloxetina.

Os autores ressalvam que o benefício costuma ser modesto e que alguns tratamentos ainda deixam dúvidas [3]. Sonolência e tontura são frequentes e pedem acompanhamento [1].

Opções aplicadas sobre a pele

Para dor restrita a uma região, há tratamentos tópicos, que agem mais no local e menos no resto do organismo:

  • Adesivo de lidocaína: um anestésico local. A revisão Cochrane classificou a evidência como de baixa qualidade, mas há estudos isolados e experiência clínica indicando que parte das pessoas melhora [4].

  • Adesivo de capsaicina em alta concentração: derivado da pimenta, aplicado em ambiente controlado. Na nevralgia pós-herpética, mais pessoas relataram alívio importante do que no grupo de comparação, com evidência considerada moderada [5].

No NeuPSIG, essas opções tópicas figuram como segunda linha, com recomendação fraca [3].

Procedimentos, em casos selecionados

Se os remédios não resolvem ou causam efeitos difíceis de tolerar, alguns procedimentos podem entrar na conversa [1]:

  • Bloqueio anestésico dos nervos envolvidos, que pode aliviar por um período curto; os estudos ainda são pequenos [1].

  • Radiofrequência pulsada, que aplica pulsos elétricos controlados junto ao nervo sem lesioná-lo. Uma metanálise citada na literatura mostrou mais redução da dor do que procedimento simulado ou remédios, e, em parte dos estudos, o efeito se manteve por até seis meses [1].

  • Estimulação da medula espinhal. Na versão temporária, uma metanálise de 2025 que reuniu quatro ensaios randomizados encontrou mais alívio do que com a radiofrequência pulsada desde o primeiro mês; o número de pacientes, porém, foi pequeno e o custo é maior [1,6]. Para o implante definitivo, a evidência nessa condição ainda é limitada [1]. Saiba mais sobre neuromodulação.

Como a dor que não vai embora mexe com o sono, o humor e a rotina, cuidar dessas áreas também faz parte do plano [1]. Leia também sobre dor neuropática e sono e dor crônica.

E para quem ainda não teve, ou acabou de ter, o cobreiro?

A vacina

Evitar o herpes-zóster é o caminho mais consistente para não chegar à nevralgia. A vacina recombinante, com adjuvante, foi comparada a placebo em dois grandes ensaios randomizados. No primeiro, com mais de 15 mil participantes de 50 anos para cima, o risco de cobreiro caiu de forma marcante [7]. O segundo, com pessoas de 70 anos ou mais, teve resultado parecido, e a soma dos dois nessa faixa etária mostrou nevralgia pós-herpética bem menos frequente [8]. Reações locais e sintomas gerais passageiros foram mais comuns entre os vacinados; eventos adversos graves ocorreram em proporção semelhante nos dois grupos [7,8].

No Brasil, ela está nas clínicas de vacinação particulares; a indicação depende da idade e do estado de saúde, então converse com seu médico.

O antiviral na fase aguda

Se o cobreiro acabou de aparecer, procure atendimento rápido: o antiviral trata a infecção aguda. Mas não é um escudo contra a nevralgia. Numa revisão Cochrane com evidência de alta qualidade, tomar aciclovir por via oral não diminuiu de modo significativo quantas pessoas evoluíram com a complicação, embora tenha havido algum sinal de dor mais leve nas semanas iniciais [9]. Em paralelo, uma metanálise de coortes observacionais ligou o início do tratamento três dias ou mais após as lesões a maior risco de a dor persistir [10].

Sinais de que é hora de procurar avaliação

  • Bolhas novas em faixa, num dos lados do corpo: procure atendimento logo. Se estiverem no rosto, principalmente perto dos olhos, não espere.

  • Dor que continua semanas depois das lesões, tira o sono, atrapalha o trabalho ou derruba o humor.

  • Remédios que não funcionam ou trazem efeitos que você não consegue tolerar.

Como a Levedad acompanha quem convive com essa dor

Na Levedad, em Ribeirão Preto, cada pessoa passa por uma avaliação individual, que revê a história do cobreiro, o tipo de dor e o que já foi tentado, com o olhar conjunto da Dra. Maria Estela Semprini, anestesiologista com área de atuação em Dor, e do Dr. Vitor Pinho, neurocirurgião e diretor técnico da clínica. A equipe discute com você um plano com várias frentes: medicamentos quando indicados, tratamentos locais, procedimentos em casos selecionados e atenção ao sono, ao humor e à rotina. Nenhuma decisão é tomada sem que você entenda os prós e os contras de cada caminho.

Perguntas frequentes

Tomar o antiviral logo no início impede a nevralgia?

Não necessariamente. Na revisão Cochrane, o aciclovir oral não diminuiu de modo significativo os casos [9]. Ainda assim, começar cedo é o recomendado, porque o atraso de três dias ou mais esteve associado a risco maior [10].

Quanto tempo essa dor pode durar?

Varia muito: há quem melhore ao longo dos meses e há quem conviva com ela por anos [1]. Esperar sem acompanhamento costuma prolongar noites mal dormidas.

Se os remédios não funcionarem, ainda há o que fazer?

Há. Bloqueios, radiofrequência pulsada e estimulação da medula espinhal podem ser considerados em casos selecionados, cada um com seus limites [1,6]. A indicação é individual.

Agende uma avaliação na Levedad

Se a dor que ficou depois do cobreiro está roubando suas noites e sua disposição, conversar com a equipe pode ajudar a organizar um plano com calma e clareza.

Fale com a equipe da Levedad pelo WhatsApp para agendar uma avaliação.

Levedad Medicina Regenerativa e Dor · Ribeirão Preto-SP · Diretor técnico: Dr. Vitor Pinho, CRM-SP 130236, RQE 42553.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento é individual.

Referências

  1. Tang F, Zhao F. Postherpetic Neuralgia: Mechanisms, Risk Factors, and Stratified Management - A Narrative Review. CNS Neurosci Ther. 2026;32(7):e71002. doi:10.1002/cns.71002

  2. Wang J, Tao R, Jiang Y, et al. Risk factors for postherpetic neuralgia: a meta-analysis based on demographic, clinical features, and treatment characteristics. Front Immunol. 2025;16:1667364. doi:10.3389/fimmu.2025.1667364

  3. Soliman N, Moisset X, Ferraro MC, et al. Pharmacotherapy and non-invasive neuromodulation for neuropathic pain: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2025;24(5):413-428. doi:10.1016/S1474-4422(25)00068-7

  4. Derry S, Wiffen PJ, Moore RA, Quinlan J. Topical lidocaine for neuropathic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(7):CD010958. doi:10.1002/14651858.CD010958.pub2

  5. Derry S, Rice AS, Cole P, et al. Topical capsaicin (high concentration) for chronic neuropathic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2017;1(1):CD007393. doi:10.1002/14651858.CD007393.pub4

  6. Abbas A, Sabet H, El-Moslemani M, et al. From Short-Term Relief to Long-Term Management: A Meta-Analysis of Temporary Spinal Cord Stimulation and Pulsed Radiofrequency in Postherpetic Neuralgia. Neuromodulation. 2025;28(6):923-936. doi:10.1016/j.neurom.2025.03.076

  7. Lal H, Cunningham AL, Godeaux O, et al. Efficacy of an adjuvanted herpes zoster subunit vaccine in older adults. N Engl J Med. 2015;372(22):2087-96. doi:10.1056/NEJMoa1501184

  8. Cunningham AL, Lal H, Kovac M, et al. Efficacy of the Herpes Zoster Subunit Vaccine in Adults 70 Years of Age or Older. N Engl J Med. 2016;375(11):1019-32. doi:10.1056/NEJMoa1603800

  9. Chen N, Li Q, Yang J, et al. Antiviral treatment for preventing postherpetic neuralgia. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(2):CD006866. doi:10.1002/14651858.CD006866.pub3

  10. Ding S, Wen S, Kang H, et al. Association of the incidence of postherpetic neuralgia with early treatment intervention of herpes zoster and patient baseline characteristics: A systematic review and meta-analysis of cohort studies. Int J Infect Dis. 2024;147:107181. doi:10.1016/j.ijid.2024.107181

 
 
 

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page