Dor crônica e atividade física: como voltar a se mexer sem medo
Alguém já disse a você, no fim de uma consulta, que bastava "fazer uma atividade física"? Talvez você tenha pensado que essa pessoa não sabe o que é acordar travado ou passar dois dias pior depois de uma volta no quarteirão. Ainda assim, o movimento é uma das ferramentas mais pesquisadas no cuidado da dor persistente. O que pesa é menos o tipo de atividade e mais a forma de começar.
O que as grandes revisões encontraram
Um levantamento que reuniu 21 revisões Cochrane, somando 381 estudos e mais de 37 mil pessoas, apontou que a atividade física tende a favorecer a dor e a função em diversas condições [1]. O tamanho desse efeito, porém, foi de pequeno a moderado, e os resultados nem sempre se repetiram de um trabalho para outro. Os autores classificaram a qualidade da evidência como baixa, em boa parte por causa de estudos com poucos participantes. Do lado da segurança, os problemas foram raros: basicamente dor muscular, que melhorava em poucas semanas [1].
Quando a dor é nas costas
Para a dor lombar crônica, a revisão Cochrane concluiu que se exercitar provavelmente diminui a dor quando comparado a não fazer nada, ao cuidado habitual ou a placebo, com certeza moderada e uma diferença que os autores julgaram relevante para o paciente [2]. O ganho na função foi mais tímido. Diante de outras abordagens conservadoras, a vantagem encolheu, e houve empate com a terapia manual [2]. Leia também sobre lombalgia e dor nas costas.
Quando a dor é no joelho
Na artrose de joelho, a revisão Cochrane mais atual analisou 139 ensaios, com mais de 12 mil participantes [3]. A prática regular provavelmente traz ganhos de dor, função e qualidade de vida no curto prazo, com certeza baixa a moderada, mas não ficou claro se esse ganho é relevante para todas as pessoas. Uma informação útil: nenhuma modalidade se destacou claramente sobre as outras [3]. Há mais detalhes em tratamento da artrose.
Quando a dor se espalha pelo corpo
Na fibromialgia, a atividade aeróbica provavelmente melhora a qualidade de vida e pode aliviar um pouco a dor e melhorar a função, sendo bem tolerada, ainda que a evidência sobre a dor seja de baixa qualidade [4]. Programas que misturam aeróbico, fortalecimento e alongamento provavelmente ajudam na qualidade de vida, na função e na fadiga; nem todos ganham muito, e algumas pessoas notaram piora temporária durante ou após as sessões [5]. Saiba mais em fibromialgia: como é o tratamento.
Em resumo: o benefício existe, costuma ser moderado e vem com constância. Movimento não substitui o restante do cuidado; é um dos pilares.
Por que o corpo às vezes reclama no começo
O analgésico natural que nem sempre aparece
Em quem não sente dor, uma sessão isolada de atividade aeróbica ou de fortalecimento costuma reduzir a sensibilidade à dor durante o esforço e por um período depois. O nome disso é hipoalgesia, ou analgesia, induzida pelo exercício [6].
Na dor crônica, a história é menos previsível. Há quem sinta alívio, há quem não perceba mudança e há quem note a dor subir logo após o esforço [6]. Esse último grupo explica muita desistência: a piora vira obstáculo, a pessoa para de se mexer e a inatividade, com o passar dos meses, tende a aumentar a dor e as limitações [6].
Daí a importância da dose: começar com pouco e acrescentar devagar dá ao organismo a chance de se ajustar.
O receio de se machucar
Depois de anos com dor, é compreensível temer que um gesto "piore o problema". Esse receio se chama cinesiofobia. Uma revisão sistemática com 63 estudos, envolvendo mais de 10 mil pessoas com dor musculoesquelética crônica, mostrou forte ligação entre mais medo de movimento, mais dor e mais incapacidade [7]. Esse medo também ajudou a antecipar quem teria mais incapacidade ao longo do tempo, com evidência moderada. Vale a ressalva: como quase todos os estudos observaram as pessoas num único momento, eles mostram associação, e não que uma coisa cause a outra [7].
Entender o que está acontecendo ajuda a destravar. Numa metanálise de 5 ensaios clínicos, com 460 pacientes, somar ao exercício aulas sobre como a dor funciona trouxe, no curto prazo, mais melhora de dor, de incapacidade e de medo de movimento do que se exercitar sem essa explicação [8]. A certeza foi baixa para dor e moderada para cinesiofobia, e ainda não há dados de longo prazo [8].
O "R" do SDIMMMER: movimento dentro de um plano
Para que nenhuma peça fique de fora, a equipe da Levedad usa como guia o SDIMMMER, roteiro publicado em 2024 por Lana e colaboradores que passa por sete áreas: sono, alimentação, microbioma, metabolismo, medicamentos, exames e reabilitação [9]. A proposta é preparar "o terreno", diminuindo a inflamação crônica de baixo grau associada ao metabolismo, para que o corpo responda melhor ao tratamento.
A atividade física ocupa o "R", de Rehabilitation. O artigo sugere programas que unam condicionamento aeróbico e fortalecimento, avançando por etapas, e considera o movimento essencial para tirar o máximo dos procedimentos de medicina regenerativa [9]. Já o "M", de Medications, lembra de revisar os remédios em uso, porque interações e efeitos colaterais podem atrapalhar [9].
Os próprios autores, porém, apresentam o SDIMMMER como proposta teórica, ainda não testada em ensaios clínicos [9]. Ele organiza o raciocínio; não garante resultado.
Como a Levedad acompanha quem quer voltar a se mexer
Na Levedad, o ponto de partida é uma avaliação individual, para entender de onde vem a dor e o que impede o movimento. A Dra. Maria Estela Semprini, anestesiologista com área de atuação em Dor, e o Dr. Vitor Pinho, neurocirurgião, olham para o caso por ângulos complementares. A partir daí, monta-se um plano com várias frentes, na lógica do SDIMMMER, em que a reabilitação conversa com sono, metabolismo e medicamentos. Em casos selecionados, e sempre após avaliação, a medicina regenerativa, as ondas de choque ou a laserterapia podem ser consideradas como parte desse plano, nunca no lugar do movimento.
Primeiros passos, com bom senso
Orientações gerais (o plano certo é sempre feito sob medida):
Passe por avaliação antes. Ela ajuda a afastar causas que exigem outro cuidado e a definir por onde começar.
Escolha uma dose que caiba no pior dia. Assim fica mais fácil manter o hábito.
Suba a carga devagar. Acréscimos pequenos, semana a semana, respeitam o ritmo de adaptação.
Conte com algum incômodo. Nos estudos, o efeito indesejado mais comum foi dor muscular passageira [1]. Dor intensa, que não passa ou que muda de característica pede interrupção e orientação.
Prefira o que dá prazer. Como nenhuma modalidade se mostrou claramente superior [3], vale andar, pedalar, nadar, pilates ou musculação.
Aprenda sobre a sua dor. Saber como ela funciona, junto com a prática, reduziu o medo de movimento nos estudos [8].
Tenha acompanhamento. Fisioterapeutas e profissionais de educação física ajustam carga, postura e progressão.
Sinais de que é hora de procurar avaliação
Busque atendimento se a dor vier com febre, emagrecimento sem motivo, perda de força ou dormência crescente em braços ou pernas, dificuldade para controlar urina ou fezes, dor intensa depois de uma queda, ou dor que aumenta em repouso e de madrugada. Vale também uma conversa se toda tentativa de se exercitar termina em piora: a dose ou a modalidade podem não ser as ideais, ou algo ainda não foi investigado.
Dúvidas comuns
Tenho medo de me machucar ao me exercitar. Isso é normal?
É muito comum. Nos estudos, mais medo de movimento andou junto com mais dor e incapacidade [7], e entender como a dor funciona, aliado a exercício orientado, ajudou a reduzir esse medo no curto prazo [8].
Se dói durante ou depois, estou piorando o problema?
Não necessariamente. Na dor crônica, um aumento passageiro logo após o esforço acontece com certa frequência [6], e a queixa indesejada mais registrada foi dor muscular que melhorava em algumas semanas [1]. Dor forte, persistente ou diferente do habitual pede reavaliação.
Movimento faz diferença para quem vai fazer medicina regenerativa?
O artigo do SDIMMMER considera o movimento peça central para otimizar procedimentos regenerativos [9], embora essa proposta ainda não tenha sido testada em ensaios clínicos. A indicação é sempre individual. Para o quadro geral, leia dor crônica: o que é e como é cuidada.
Agende uma avaliação na Levedad
Se a ideia de voltar a se mexer assusta, uma conversa com a equipe pode ajudar a definir um ponto de partida seguro e realista para o seu caso.
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Levedad Medicina Regenerativa e Dor · Ribeirão Preto-SP · Diretor técnico: Dr. Vitor Pinho, CRM-SP 130236, RQE 42553.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento é individual.
Referências
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Hayden JA, Ellis J, Ogilvie R, et al. Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2021;9(9):CD009790. doi:10.1002/14651858.CD009790.pub2
Lawford BJ, Hall M, Hinman RS, et al. Exercise for osteoarthritis of the knee. Cochrane Database Syst Rev. 2024;12(12):CD004376. doi:10.1002/14651858.CD004376.pub4
Bidonde J, Busch AJ, Schachter CL, et al. Aerobic exercise training for adults with fibromyalgia. Cochrane Database Syst Rev. 2017;6(6):CD012700. doi:10.1002/14651858.CD012700
Bidonde J, Busch AJ, Schachter CL, et al. Mixed exercise training for adults with fibromyalgia. Cochrane Database Syst Rev. 2019;5(5):CD013340. doi:10.1002/14651858.CD013340
Rice D, Nijs J, Kosek E, et al. Exercise-induced hypoalgesia in pain-free and chronic pain populations: state of the art and future directions. J Pain. 2019;20(11):1249-1266. doi:10.1016/j.jpain.2019.03.005
Luque-Suarez A, Martinez-Calderon J, Falla D. Role of kinesiophobia on pain, disability and quality of life in people suffering from chronic musculoskeletal pain: a systematic review. Br J Sports Med. 2019;53(9):554-559. doi:10.1136/bjsports-2017-098673
Siddall B, Ram A, Jones MD, et al. Short-term impact of combining pain neuroscience education with exercise for chronic musculoskeletal pain: a systematic review and meta-analysis. Pain. 2022;163(1):e20-e30. doi:10.1097/j.pain.0000000000002308
Lana JV, Lana JF, Melo G, et al. SDIMMMER: a proposed clinical approach to optimize cellular physiology in regenerative medicine. Life (Basel). 2024;14(10):1287. doi:10.3390/life14101287




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